quarta-feira, janeiro 24, 2007

Quando eu for grande







- O que queres ser quando fores grande? Perguntava a Mar.
- Quando eu for grande quero ser arqueóloga, andar de joelhos com um pincel a escavar devagarinho e em silêncio, coisas que os vivos deixaram aos mortos para nunca esquecerem a sua parte terrena. Juntar bocadinhos de barro, contas e ferros e ossos, até renascer o esquecido. Perceber do que morreram, quando morreram, quem eram e quanto eram amados ou odiados. Agradecer oferendas misteriosas de coisas soltas que só eu saberia juntar.
Mas tudo era tempo demais, e eu queria mesmo era bazar depressa para um tecto pago por mim.

Entretanto, pintava coisas e lousas, e tábuas e paredes e tectos, e via-me Miguel Ângelo no andaime, esborratada de tintas e cores, e as formas a pular nas galerias em caras espantadas de gozos. Mas a vida não me quis de boina ao lado, a vida de artista era o sub mundo e ninguém lá em casa me deixou ficar com os pincéis. Ficas com as paredes que até tens jeitinho.

Depois, o sonho foi esmorecendo ao lado dos sapatos de pontas que se riam estuporados no fundo do armário. Era demasiado ossuda, demasiado grande, demasiado masculinizada, demasiado independente, sem o lado de bijou queridinho, e depois de ter partido o espelho inadvertidamente com uma patada, aconselharam-me delicadamente a procurar um rumo mais adequado à quantidade de massa muscular que não parava sossegada no maiô.

Armar-me em maluca com estilo, resultou numa fractura de rótulas num salto idiota de confiança sobre a mesa alemã. Chama-se a isto, hormonas em desacordo absoluto. E, quando as costas retesadas de músculos do remo decidiram rebentar com todos os botões da camisa, parei. Os calos nas mãos incomodavam muita gente, e eu tinha uma noção muito vaga do que era uma manicure.

Agora passo a vida mascarada de azul, entre ossos e visceras e nervos e humores, num ambiente asséptico sem poeiras e sol, agradecendo a percepção da dor para tentar minimizar a dos outros. Pinto com betadine corpos, faço pinos com sapatões cor-de-laranja, danço ás vezes pelos corredores, e manejo peças soltas esquecidas pelos vivos que montadas dão caixas de bujigangas metalizadas.

Plim!

16 comentários:

  1. eu, quando for grande só quero ser eu. mas tu, masculinizada ou não, pareces-me bem assim... ;) plim!

    ResponderEliminar
  2. Ai mulher e tu eras lá capaz de desperdiçar os teus sonhos e não os reciclares na vida de agora! :))

    Lá por estarmos mais crescidas (cóf, cóf ;), não há como brincar como quando eramos mais pequenas.

    ResponderEliminar
  3. Oh fábula, mas eu não sou o espectro de ninguem.
    Eu, sou eu.E garanto-te sem falsas humildades que quem me conhece sabe isso muito bem.
    e obrigado
    ;o)

    ResponderEliminar
  4. Pois é marie, sempre fui uma mãozinhas
    :D
    E as meninas crescidas como nós(atchim!! esta constipação ainda nos mata)têm uns brinquedos altamente!

    ResponderEliminar
  5. E se não amansas faço queixa ao sr. director ;)
    Porra! Só a mim é que me calham Sôtoras com pinta de "Madretreza".
    Quand'é que tás de banco, cachopa?)

    Beijinhos, o post está excelente

    ResponderEliminar
  6. AI Erecteu não vás por aí. Ainda está para nascer o sr director que me meta medo. Só para veres eu comprei um gato ;)
    E deixa-te de ideias que não me apetece trabalhar contigo aos uis.
    obrigado amigo
    beijinhos

    ResponderEliminar
  7. Está, de facto. E de azul nem está mal de todo, bem pior seria verde!

    ResponderEliminar
  8. Pois é neste país não dá para seguir vocações. Deveríamos ter nascido na Holanda ou em Itália!

    Com vocações desenvolvidas ou sem elas aposto que és linda na mesma!

    Beijinhos

    CSD

    ResponderEliminar
  9. Foi a mais linda resposta que eu poderia esperar... só desejo que dês asas aos sonhos, que coles muitos ossos e cosas muitos tecidos rasgados, para dares vida àquilo que à partida a parece ter perdido.
    Muitos beijos menina de azul.

    ResponderEliminar
  10. de que cor são os anjos?
    ah... bem me parecia que eram azuis!

    ResponderEliminar
  11. Olha que gaja mais gira que está na foto! :)

    ResponderEliminar
  12. Sempre re-inventando as possibilidades parece-me ser o melhor caminho para ser "grande"! ;)

    ResponderEliminar
  13. Gasel, já lá vai o tempo em que era verde.
    Mas antes azul que vermelho, pelo menos levo menos com o toureiro.
    :D


    Claudia
    lá dizia o meu avó que a beleza vem de dentro.
    :DD
    beijinhos

    Elipse
    ainda bem que estava sentada sobre ele, assim não consegues ver a cauda ponteaguda a abanar.
    ;o)

    Bigodes pá!
    há séculos que não te ponho os olhos nos pelos!!

    Patioba
    se a vida te der limões faz limonada.
    Embora eu nem seja aprecidora...
    ;)

    ResponderEliminar
  14. Eu sei que sim JP, mas tenho a certeza que a tens de sobra tanto interna como externa!

    Concordo com a opinião da Bastet.

    Sem tirar nem por!

    Beijocas

    CSD

    ResponderEliminar
  15. JP:

    Por que as pessoas não se podem comparar mas em todo o caso, acho eu que a Helena do 'Páginas da Vida' se se parece muito contigo. Tanto no aspecto da beleza quanto na entrega da sua profissão. Gostei muito de ver-te e estás mesmo com ar de artista. Um beijo.

    ResponderEliminar
  16. gosto desta escrita :-)

    ResponderEliminar