terça-feira, abril 18, 2006

Biombos


Faltavam sessenta dias para acabar o curso, e uma noite “esqueceram-se" de mim numa enfermaria sem janelas. Telefonei-lhe para casa em tumulto, o coração no cérebro a latejar assustado, o quepe meio de banda. Que estava de diarreia, e afinal daqui a uns dias eu ia ficar sozinha na mesma, e desligou.
Fiquei de auscultador pesado e preto, na mão, a ouvir o pi...pi...pi...pi..., e a tentar regorgitar saliva desaparecida, num esforço meio estúpido de glote que subia e descia. A pergunta: e agora? martelava-me o diafragma, sempre a subir pelo peito como uma hera de metal.
Vagueei pelas camas ocupadas, descalça, para a morte não me ouvir e eu poder ouvi-la a ela, de lanterna a pilhas na mão, boca de luz reflectida nas colchas brancas de favos. Escutava em apneia as respirações adormecidas, e abençoava as morfinas amigas/companheiras de todas as doenças neoplásicas que habitavam aquele cubículo. Vigiava as gotas perfeitas nos sistemas de soros, trocava garrafas de vidro frio, por outras ainda mais frias. Circundava cadeiras como estatuetas mudas, e escrevia tudo furiosamente num papel amarrotado que me ocupava o bolso.

E um soluço ao longe, e mais um, e a corrida rápida no soalho de madeira que cheirava a urina, a solidão,a sofrimento velhice e abandono, a muita gente junta deitada. Sempre deitada...
-E o que foi, e porque chora, e a resposta sibilada entrecortada, e veja, olhe para ali, a morte já veio, e ela está mal, veja, olhe! E eu olhava, e só via uma mulher na cama do lado, o olhar meio enevoado, o penso da mama repassado a drenar veneno que comia entranhas, e a mão ossuda caída na colcha de favos brancos. Alinhei o biombo de ferro, vestido de algodão branco ás preguinhas, e debrucei-me sobre ela, não sem antes verificar por duas vezes o gotejo.
-Sente-se aqui menina, aqui pertinho, que tenho medo.
E de que medos falava ela, que estava tudo bem, que tinha tantas mulheres ali ao lado. E que a noite era grande, e que precisava de descansar. E fico aqui um bocadinho e dou-lhe a mão:
- Quer?
Passou-se tempo que não me recordo, e a mão tão fria e tão ossuda, e a laxidez a entrar sorrateira. E depois disse-me que já não tinha tanto medo.

Quando percebi que o pequeno sorriso tinha congelado no tempo, tapei-lhe o rosto com o lençol e a colcha de favos brancos, e debulhei-me em lágrimas em cima da mesa enorme, rodeada de processos clínicos onde se lia em alguns a letras vermelhas sublinhadas,não reanimar.

16 comentários:

  1. JP, minha querida amiga, como me calou fundo toda essa vivência! Pois, é, e assim acaba muitas das vidas humanas, onde os que ficam fazem o favor de não reanimar. Um beijo.

    ResponderEliminar
  2. Por alguma razão te ensinaram o afastamento emocional nessa profissão. Esse tipo de coisas desgastam um tipo...

    ;-)

    ResponderEliminar
  3. Soslayo
    a vida é muito curta, e parte das vezes muito dolorosa.
    bjo

    O afastamento emocional em 6 lições, de pouco me valeu naquela altura. Ainda hoje de vez em quando de pouco me serve, Old.
    ;-)

    Muito amarga, Carlos, nem com açucar nem mel.

    ResponderEliminar
  4. apetecia-me dizer nada.... acho que é isso que vou fazer...

    ResponderEliminar
  5. Das poucas coisas que nos distinguem dos animais, é que nós conseguimos articular ideias e esculpir com palavras os nossos medos, as nossas fraquezas, os nossos sonhos e o nosso desespero... só que uns sabem-no fazer melhor que outros... e para quê mais comentários!?...

    ResponderEliminar
  6. Não foi bem Ouch, Katraponga...
    ;-)

    e.b.
    Obrigado
    :-)

    ResponderEliminar
  7. Não ando nada boa para ler destas coisas...

    ResponderEliminar
  8. desculpa querida, mas foi uma das coisas que tinha que sair em escrita
    :-(

    ResponderEliminar
  9. Quando aqui vim da primeira vez, só havia um comentário. Muitos regressos depois, continuo incapaz de dizer seja o que for, JP.

    ResponderEliminar
  10. Compreendo Cap.
    É fazer de conta que já não nos doí.
    E que somos imunes, e que ultrapassamos tudo de animo leve.
    Trabalhar com doentes terminais,é agarramo-nos à dádiva da vida que tão mal tratamos.

    ResponderEliminar
  11. Descreveste com intensidade esses breves? momentos de hospital, sempre a correr, sempre iguais e sempre únicos - as estatísticas não têm alma.
    Parabéns pelo belo e fluido texto de q gostei muito.

    ResponderEliminar
  12. Obrigado vague.
    e tens razão, as estatísticas não têm alma.
    (Eu tb lá vou "espreitar-te" e garanto que também gosto)
    ;-)

    ResponderEliminar
  13. Não vinha cá há bastante tempo. Este post é fundamental, no sentido de que são estes momentos que dão sentido à nossa existência. O resto é mera decoração. Obrigado.

    ResponderEliminar
  14. Quanta razão abs tens...
    e anda meio mundo preocupado com questões estéticas...
    mas isso tu sabes, e eu tb.
    de nada, obrigado eu.

    ResponderEliminar